O Jaecoo 5 BEV Exclusive é um automóvel que impressiona largamente pela fantástica relação preço/equipamento, conforto bastante aceitável e pelo seu design premium. O software, no entanto, precisa de melhorias.
O número de marcas automóveis chinesas presentes em território nacional é cada vez maior. De certa forma, é incontornável afirmar que muitas delas estão a apresentar-se ao mercado europeu – e também ao mercado português, com soluções bastante completas e robustas a um preço mais baixo, comparativamente à restante concorrência.
Desta vez, tive a oportunidade de ensaiar o novo Jaecoo 5 BEV, e logo na sua versão de topo, a Exclusive. Antes de arrancarmos para este ensaio, e para quem não conhece ainda a Jaecoo, é uma marca chinesa de automóveis criada em 2023 a par com a sua irmã, a Omoda, e que se posiciona no mercado como uma marca de contornos mais premium e aventureira, sendo atualmente importada para Portugal pelo Grupo JAP.
Exterior: Traços sino-europeus
Dando agora uma primeira vista sobre este Jaecoo 5, é impossível não notar as semelhanças estéticas de algumas soluções já existentes no mercado premium europeu, especialmente pelas suas linhas exteriores, dimensões que remetem quase instantaneamente para propostas de uma marca de SUVs amplamente conhecida, mas por um preço substancialmente inferior. Este mede cerca de 4,78 metros de comprimento, tem 1,65 metros de altura e 1,86 metros de largura, transmitindo-nos de forma muito rápida uma sensação premium, jovem e aventureira por valores que pouco ultrapassam os 35.000€.
Mas será que este Jaecoo 5 tem os argumentos certos para convencer as famílias portuguesas? Para descobrir, fiz-me à estrada numa viagem exigente entre Lisboa e Portimão.
Habitáculo: Ambiente premium, tecnologia e o desafio da bagageira
O interior do Jaecoo 5 surpreende claramente pela positiva pela sólida qualidade de construção. Também os materiais utilizados no interior deste Jaecoo transmitem uma sensação inegavelmente nobre, bem acima da minha expectativa e acima também daquilo que o preço poderia sugerir. Olhando para a zona do tablier, esta é bastante minimalista, sendo apenas dominada por um pequeno painel de instrumentos digital de 8,8 polegadas colocado em frente ao condutor, complementado por um imponente ecrã central vertical tátil de 13,2 polegadas.
Confesso que, inicialmente, tive dúvidas quanto ao correto funcionamento do Apple CarPlay num formato vertical tão pronunciado. Certo é que, depois de ligar o meu iPhone, todos os receios desapareceram, sendo que fiquei com um CarPlay enorme de 13,2 polegadas vertical, algo que nunca tinha visto anteriormente e que me surpreendeu imenso.
Quanto ao espaço disponível no interior, tanto para passageiros dianteiros para os traseiros, chega e sobra para que possamos fazer uma viagem com a nossa família bem acomodada, sem que os joelhos toquem sequer no tablier ou nas costas dos bancos da frente.
Ainda assim, apesar do grande espaço disponível no habitáculo, as dimensões e design interior do porta bagagens podem obrigar a uma ginástica de planeamento caso se viaje com três ou quatro pessoas. Por outras palavras ,e apesar da marca anunciar uma capacidade na bagageira que varia entre os 380 e os 480 litros, acreditem que, se viajarem com um carrinho de bebé tradicional, duas malas de viagem de média dimensão e alguns sacos de pequena dimensão, a arrumação revela-se uma tarefa algo complicada.
A meu ver, a culpa é, em grande parte, do alçapão (fundo falso) do porta-bagagens, roubando uma grande parte dos litros desta bagageira e que poderia ter sido posicionada bem mais abaixo do que se encontra atualmente. Para dar a volta ao tema, consegui colocar uma das malas de viagem e alguns sacos por baixo desse fundo falso da bagageira, onde por acaso até encaixaram na perfeição. Para salvaguardar mais algum do precioso espaço existente na bagageira, aproveitei a pequena bagageira dianteira de 35 litros para guardar os cabos de carregamento e demais acessórios do carro tal como o V2L.
Tecnologia: ecrãs de sobra, software a precisar de revisão

Sendo um veículo focado na tecnologia, o ecrã gigante de 13,8 polegadas é a verdadeira central de comando do Jaecoo 5. É aqui que podemos controlar a climatização do habitáculo, controlar o aquecimento ou a ventilação dos bancos dianteiros, personalizar aspetos da condução ou, até, seleccionar a rádio ou fonte de música que mais gostamos de ouvir para apreciar num bom sistema de som que equipa este carro de oito colunas de marca Sony.
Contudo, este falha por (ainda?) não disponibilizar uma loja de aplicações para expandir as opções nativas e a personalização ao estilo Google Automotive. Aqui apenas temos acesso ao essencial: Rádio, Bluetooth, Apple CarPlay, Android Auto, uma câmara de visão 360º/540º (excelente para manobras) e alguns modos curiosos nativos, tais como como o modo Pet, o modo de Campismo, climatização estacionária e, até, uma aplicação de Karaoke.
A navegação nativa, embora pareça ter uma base Google, é fornecida pela HERE, revelando-se até bastante competente a ler o trânsito em tempo real e a recalcular sempre que necessário a nossa rota em hora de ponta de forma a minimizar atrasos. Para mim, o grande calcanhar de Aquiles deste sistema de infoentretenimento é a deficiente adaptação ao mercado europeu, pois apanhei algumas traduções em português dos seus menus, no mínimo, caricatas: deparei-me com pérolas como “regular o pala sol” (para a cortina do teto panorâmico), “equalizador avançado” num contexto despropositado, ou “controlo do passo do travão”.
A juntar a isto, existem siglas incompreensíveis (como o “lembrete de cancelamento ICCS”) e alertas sonoros constantes durante a condução, cujo significado o ecrã simplesmente não consegue explicar, deixando o condutor confuso a olhar para o monitor. No que toca à usabilidade das hastes sob o volante, estas também necessitam de ser revistas pela marca, pois temos do lado esquerdo uma haste que concentra demasiadas funções, tornando a sua utilização confusa, sendo particularmente difícil perceber como alternar os limpa-vidros entre o modo manual e automático. Da mesma forma, os comandos das luzes que também se encontram nesta haste esquerda revelam-se pouco práticos e tornam algo difícil a tarefa básica de desligar de forma manual os faróis frontais.
Ao volante: um estradista que pede mais bateria
Com um motor elétrico a debitar 211 cv (155 kW) de potência e 288 Nm de binário, e tração dianteira, o Jaecoo 5 BEV revelou-se um excelente companheiro nas vias rápidas. O seu comportamento dinâmico em estrada é muito refinado e fluido, provando que é um carro que pisa muito bem a estrada; mesmo a ritmos de 135 km/h em autoestrada, a postura do veículo é perfeitamente aceitável e transmite a segurança necessária aos seus passageiros e, em particular, ao condutor.
A alimentar este conjunto está uma bateria LFP de 60,9 kWh que, a meu ver, poderia ser revista e incluir um pouco mais de capacidade, tendo em conta a autonomia real e os consumos instantâneos deste Jaecoo 5. Durante a viagem que fiz rumo ao sul, mantive uma velocidade de cruzeiro conservadora a rondar os 100 km/h e o consumo fixou-se nos 22.3 kWh/100 km. Apesar da marca prometer 402 km de autonomia no ciclo combinado WLTP, a circulação em autoestrada continua a ditar as suas próprias regras ao elevar um pouco mais o consumo e a obrigar a paragens a meio do caminho para reabastecer a bateria de eletrões. Com apenas 55% de carga restante e 168km de autonomia, tive que parar cerca de 50 minutos num carregador rápido (DC) da área de serviço de Grândola para recarregar a bateria do Jaecoo até aos 90%. Isto para conseguir chegar ao destino.
Sendo este um modelo com clara vocação familiar, talhado para percursos médios e grandes distâncias, fica a inegável sensação de que faltam aqui uns 80 a 100 km de autonomia extra para permitir fazer a viagem Lisboa-Algarve de forma completamente ininterrupta e sem ansiedade. Esta é uma fasquia que vários concorrentes europeus e sul-coreanos já conseguem atingir no mesmo segmento.
Veredicto
O Jaecoo 5 BEV Exclusive é um automóvel que impressiona largamente pela fantástica relação preço/equipamento, conforto bastante aceitável e pelo seu design premium, suportado ainda por uma tranquilizadora garantia de 7 anos ou 150.000 km (8 anos ou 160.000 km para a bateria). Por cerca de 36.490€, é inegável que levamos para a garagem um SUV familiar imponente e competente, mas que ainda tem algumas areas por limar para uma maior aceitação deste no mercado automóvel europeu, e em particular no mercado automóvel português.
Um dos pontos a rever com alguma urgência é o software do sistema de infoentretenimento, de forma a corrigir as traduções caricatas, domar e clarificar melhor os alertas sonoros intrusivos e com siglas estranhas para um estilo mais europeu. Acredito que, resolvido o tema do software, a Jaecoo pode-se assumir como uma dor de cabeça a sério para as marcas tradicionais no mercado europeu.
