Novo projeto da Kimbrel Wines no Vale do Roncão aposta em parcelas únicas, vinhos de alta gama e estratégia internacional centrada nos EUA.
Na margem direita do Douro, no Vale do Roncão, a cerca de 15 minutos do Pinhão, um projeto vitivinícola recente está a reforçar a identidade produtiva de uma região histórica, com foco em produção limitada, valorização do património e estratégia claramente internacional. Batizado de Kimbrel Wines, o projeto resulta da articulação entre uma herança local que remonta a 1851 e uma lógica de gestão contemporânea, construída à volta de uma parceria entre o norte‑americano David Sylvester e o enólogo português Isaac Campelo. A marca entra formalmente em Portugal através do Douro, posicionando‑se desde a origem num segmento de vinhos de gama média‑alta e alta, com volume anual deliberadamente reduzido e forte peso atribuído ao detalhe.
O projeto acompanha‑se de um trabalho de requalificação profunda da propriedade, iniciado em 2022, quando a Kimbrel assumiu a gestão do terreno. A intervenção incluiu a reconstrução de muros de xisto, a requalificação de acessos e a replantação de vinhas, num processo que privilegia a leitura individualizada de cada parcela. Em vez de uma abordagem padronizada, as vinhas são tratadas em micro‑lotes, o que se traduz numa produção anual que, em regra, não ultrapassa as 20.000 garrafas. Desse universo, cerca de 7.000 garrafas são classificadas como DOC Douro e os restantes 13.000 como Vinho do Porto, o que ajuda a reforçar um posicionamento centrado no segmento premium.
O portfólio da marca combina vinhos de parcelas únicas provenientes de vinhas velhas com referências de caráter patrimonial, como o Porto Tawny 50 Anos, que integra lotes envelhecidos durante mais de um século. Esta dualidade – entre modernidade e herança – orienta tanto a escolha de encostas e variedades como a gestão de antigas castas, que se acrescentam a uma matriz mais convencional, mas sempre pensada para exprimir o terroir de forma direta, sem recurso a perfis excessivamente marcados por madeira ou envelhecimento prolongado que não se justifiquem pela matéria‑prima. A proposta de valor não se apoia em narrativas abstratas, mas em uma cartilha clara: colheitas pequenas, observação detalhada do terreno e enologia de precisão.
Com o mercado internacional, sobretudo os Estados Unidos, como prioridade, a Kimbrel Wines está a preparar também a componente de enoturismo, que se insere num plano de expansão estrutural até 2030. A marca prevê a recuperação de armazéns históricos e a construção de uma adega própria, que funcionará como ponto central de integração entre produção, armazenamento e experiência de visita. A ideia é consolidar um modelo de hospitalidade baseado na exclusividade, com foco em visitas pequenas, personalizadas e centradas na imersão territorial, em vez de propostas de massa ou de caráter meramente recreativo.
Em termos de investimento, o projeto integra‑se numa estratégia de crescimento mais lato da Kimbrel Wine Company, que já produz vinho em Napa Valley e que em Portugal insere o Douro como uma nova coluna de crescimento. A operação representa um investimento global estimado em torno de 10 milhões de euros, consagrados à requalificação de infraestruturas, ao desenvolvimento de ativos agrícolas e ao reforço da marca em mercados externos. A propriedade totaliza cerca de 30 hectares, dos quais 12 estão atualmente dedicados a vinhas; a restante área destina‑se a corredores ambientais, olivais, jardins e pomares, o que reforça a aposta em práticas vitivinícolas sustentáveis e numa exploração agrícola que integre a preservação ecológica na sua lógica produtiva.
A capacidade produtiva estimada ronda, como referido, as 20.000 garrafas por ano, distribuídas entre DOC Douro e Vinho do Porto, com parâmetros que permitem ajustar a oferta a colheitas específicas sem sacrificar o padrão de qualidade. Em termos de cronograma, a primeira colheita ocorreu em 2022, com o lançamento comercial dos primeiros vinhos previsto para 2026. As primeiras degustações com visitas ao vinhedo e aos jardins da propriedade estão previstas para o final de 2026, seguidas, ao longo da década, pela construção de um edifício de degustação integrado no vinhedo, de espaços de hospitalidade e, por fim, da adega de produção, que deverá ficar concluída em 2030.
O projeto prevê a criação de cerca de 20 postos de trabalho diretos e indiretos, centrados em funções de contacto com clientes, operações de vinha e enologia de precisão, bem como em operações de apoio a enoturismo. A combinação pretende aliar a atenção ao detalhe, típica de uma viticultura de pequena escala, com o uso de tecnologias avançadas para monitorização de solos, clima e maturação, de forma a otimizar a gestão da vinha sem recorrer a modelos intensivos. Neste conjunto, a Kimbrel Wines posiciona‑se como um projeto de investimento estruturante no setor vitivinícola nacional, que combina requalificação do património, valorização económica do território e uma estratégia de internacionalização claramente definida para o segmento de vinhos de gama média‑alta e alta.
