Os Rádio Macau esgotaram em 48 horas o concerto de 2 de outubro no Coliseu dos Recreios e anunciaram uma segunda data em Lisboa, a 30 de setembro.
Bastaram dois dias para que os bilhetes para o concerto dos Rádio Macau, marcado para 2 de outubro no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, desaparecessem por completo das bilheteiras. A rapidez obrigou a uma resposta imediata: a banda confirmou uma segunda noite na mesma sala, agora a 30 de setembro, antecedendo a data já marcada. Os bilhetes para este novo concerto encontram-se à venda nos locais habituais, tal como os últimos lugares disponíveis para a atuação do Porto, agendada para 15 de outubro no Coliseu Porto Ageas.
A banda regressa com a formação que escreveu alguns dos capítulos mais densos e particulares do pop-rock nacional, prometendo um alinhamento que percorre as várias fases de uma discografia que nunca se deixou reduzir a uma fórmula.
Os Rádio Macau emergiram no início da década de 1980, integrados na chamada segunda vaga do pop-rock português, um momento de efervescência criativa que trouxe à música nacional influências do pós-punk e da new wave britânica. Mas a banda nunca se limitou a importar estéticas. Desde muito cedo construíram um universo próprio, identificável e coerente, onde a tensão elétrica das guitarras convive com a frieza calculada da eletrónica, e onde a palavra assume um peso que raramente se encontra neste tipo de música. Lisboa, os seus subúrbios, a noite urbana, a solidão dos dias comuns, tudo isso entrou nas canções dos Rádio Macau com uma precisão quase literária.
No centro desse universo está a voz de Xana, uma das mais singulares da música portuguesa. Entre o canto e a declamação, entre a contenção e a urgência, Xana construiu um timbre que se tornou inconfundível. Em torno dele, Flak na guitarra, Alex Cortez no baixo, Filipe Valentim nos teclados e Samuel Palitos na bateria formaram uma arquitetura sonora densa e cuidada, capaz de sustentar canções que vivem tanto do que dizem como do que sugerem.
O percurso discográfico dos Rádio Macau é rico e variado. O álbum de estreia homónimo, lançado em 1984, estabeleceu de imediato as coordenadas do projeto: “Bom Dia Lisboa” e “A Noite” são temas que fixaram uma escrita marcada pela observação da cidade e por uma introspeção que nunca escorrega para o sentimentalismo fácil. No ano seguinte, A Vida Num Só Dia alargou o alcance da banda, sem que isso implicasse qualquer concessão à identidade que tinham construído. Spleen, de 1986, é talvez o disco mais concetual da discografia, atmosférico e fechado sobre si mesmo, uma exploração das margens mais sombrias do pop. O Elevador da Glória, lançado em 1987, trouxe “O Anzol”, um dos temas mais reconhecíveis do repertório da banda, e consolidou a sua posição num panorama musical que os admirava sem saber muito bem onde os colocar. O Rapaz do Trapézio Voador, de 1989, deu ao público “Amanhã É Sempre Longe Demais”, outra canção que se tornou marco para toda uma geração.
Ao longo dos anos seguintes, os Rádio Macau atravessaram fases diversas, explorando linguagens eletrónicas e apostando em modelos de produção cada vez mais autónomos. Nunca foram plenamente mainstream, mas também nunca se confinaram ao underground. Ocuparam sempre um espaço intermédio, difícil de rotular, que é também o mais difícil de sustentar: o de uma banda que fez da melancolia matéria-prima pop e que transformou a literatura em canção sem que nenhum dos dois lados saísse diminuído.
