Boox Go 10.3 Review: um caderno digital quase perfeito… se houver luz

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O Boox Go 10.3 é um tablet de e-ink focado na leitura e na escrita, com um ecrã muito nítido e uma experiência de escrita natural. No entanto, a falta de luz frontal e algumas limitações de design podem ser um obstáculo para alguns.

Nos últimos anos, os ecrãs de tinta eletrónica deixaram de ser “coisa de e-readers” e começaram a ocupar um espaço próprio entre o papel e os tablets tradicionais. Para quem lê muito, trabalha com PDFs ou gosta de escrever notas à mão, estes dispositivos têm um encanto difícil de explicar até se usar um: menos cansaço visual, menos distrações e uma sensação mais próxima de um caderno do que de um gadget.

Foi nesse contexto que apareceu o Boox Go 10.3. É um tablet de e-ink de 10.3 polegadas, muito fino e leve, desenhado para ler, escrever e anotar com conforto, e ainda vem com uma caneta incluída e um conjunto de ferramentas nativas surpreendentemente completo para notas e documentos.

Ao pegar no Boox Go 10.3 pela primeira vez, tive logo duas surpresas: a leveza do dispositivo e o quão fino é – estamos a falar de um corpo com cerca de 4,6 mm e um peso a rondar os 375 g. São números que o colocam no topo da categoria no que toca à portabilidade dentro dos e-notes de 10 polegadas, e isso nota-se sobretudo quando preciso de o meter na minha mochila de trabalho, por norma sempre bastante cheia, em que cada grama e cada milímetro acabam mesmo por contar.

De resto, a Onyx – empresa-mãe da Boox – optou por um design muito limpo no Boox Go 10.3, com molduras relativamente discretas e uma moldura mais generosa numa das laterais e na zona inferior, o que ajuda a segurar o equipamento sem estar constantemente a tocar no ecrã. A ideia é boa e funciona, embora haja quem ache que molduras um pouco mais largas, como noutros modelos do segmento, reduzem melhor os toques acidentais. A estrutura metálica dá um toque premium e a traseira, com textura tipo pele, tem duas vantagens práticas: oferece mais aderência do que vidro liso e disfarça melhor impressões digitais. A desvantagem é que, sendo uma cor clara, pode ganhar marcas de uso com alguma facilidade, o que à partida não se coloca quando se usa sempre uma capa protetora, algo que recomendo bastante fazer e da qual irei falar mais adiante.

Nos controlos e portas, o Boox Go 10.3 é minimalista. Há um botão de ligar no topo, uma porta USB-C em baixo e grelhas para altifalantes e microfone. Falta um controlo físico de volume e não há expansão por microSD, o que obriga a aceitar o armazenamento interno tal como vem: 64GB. Para muitos, 64GB chega e sobra para livros, PDFs e cadernos de notas; para quem trabalha com bibliotecas enormes, PDFs pesados, bandas desenhadas digitalizadas ou exportações constantes em PNG/PDF, pode saber a pouco, sobretudo porque este é um dispositivo caro e, noutros produtos da própria marca, já se viram opções com expansão. A ausência de certificação IP (resistência a água e poeiras) é quase um clássico neste segmento: não é um aparelho para usar sem cuidados na praia, na banheira ou em ambientes onde um acidente com líquidos seja possível.

A caneta incluída é um ponto importante, porque há marcas que fazem disto um extra caro. A caneta usa tecnologia EMR, o que significa que não precisa de bateria ou de carregamento e, na prática, oferece uma experiência de escrita muito consistente. A sensibilidade à pressão chega aos 4096 níveis, o que é ótimo quando quero traços mais expressivos, fazer desenhos e sombreados com variações subtis, ou seja, a “tinta” sai diferente conforme se escreve com mais ou menos pressão.

Uma das desvantagens desta caneta é que não inclui borracha/atalho de apagar, existindo para isso uma outra caneta, vendida à parte, já com essa borracha incluída. E depois há a questão do íman: a caneta que já vem de base prende-se magneticamente ao corpo, mas o íman nem sempre é forte o suficiente para inspirar confiança, especialmente em transporte. Dependendo do gesto e do ângulo, é fácil imaginar a caneta a descolar e a desaparecer numa mala.

O centro da experiência, como sempre num e-note, é o ecrã. Neste departamento, o Boox Go 10.3 usa um painel E Ink Carta 1200 com 10,3 polegadas, uma resolução 2480 x 1860 e densidade de 300 ppi. Estes números são relevantes porque 300 ppi num formato de 10 polegadas não é assim tão comum e, quando se lê texto, acaba por revelar uma nitidez excelente. Letras pequenas mantêm-se legíveis, fontes serifadas ficam bem definidas e PDFs com espaçamento reduzido – ou seja, quand o texto está mais compactado – beneficiam desse detalhe extra. Há ainda um argumento que surge muitas vezes a propósito deste modelo: como não existe uma camada de iluminação frontal, há menos “camadas” entre a tinta eletrónica e os olhos, e isso pode ajudar na perceção de contraste e na sensação de proximidade do texto à superfície. Na prática, usando uma boa luz ambiente, a leitura é mesmo muito agradável, com quase zero reflexos no exterior e uma tranquilidade visual que convida a ler e a escrever com foco.

A ausência de luz frontal do Boox Go 10.3, no entanto, não é um pormenor: é o pormenor. Se a vossa rotina inclui ler à noite na cama, tomar notas em salas de aula ou reuniões com luz insuficiente, ou simplesmente trabalhar frequentemente em ambientes com iluminação variável, o Boox Go 10.3 obriga a uma coisa muito simples: uma fonte de luz. Podem contornar com um candeeiro, com luz ambiente ou com uma luz de secretária direcionada, mas é um compromisso constante. Há quem adore esta decisão, porque assume que um “papel digital” se deve comportar como papel: se não há luz, não se lê. Há quem ache incompreensível num produto desta gama de preço, sobretudo porque existem alternativas com luz frontal bastante competente. A verdade é que, e apesar de não existir uma resposta universal, a consequência é clara: o Go 10.3 é ótimo de dia e, à noite, fica condicionado pelas fontes de luz disponíveis – ou pela falta delas – no espaço onde o estão a usar.

Outra característica inevitável dos E Ink é o ghosting, aquelas sombras da imagem anterior que podem ficar visíveis. No Boox Go 10.3 existe, como em praticamente todos, mas a marca dá ferramentas para o controlar através de modos de atualização do ecrã. Isto é uma área onde a Onyx costuma ser forte: permite escolher entre modos mais “lentos” e limpos (para leitura) e modos mais rápidos (para navegação, aplicações ou apenas para fazer scroll), aceitando em troca mais ghosting e perda de detalhe. Para a leitura de livros e PDFs, o modo mais nítido costuma ser o preferível. Para navegar na web, usar aplicações de terceiros e mexer em interfaces mais dinâmicas, os modos rápidos ajudam a tornar o dispositivo “usável”, mas não fazem milagres. Há uma barreira que o E Ink não atravessa: vídeo e animação continuam a ser experiências pobres, mesmo que tecnicamente possíveis. Por exemplo, ver YouTube em tons de cinzento e com refresh limitado? É possível, sim, mas não é, de todo, recomendado.

Onde o Boox Go 10.3 costuma convencer quase toda a gente é na escrita. A latência é baixa, o traço acompanha bem e a superfície tem textura suficiente para não parecer “caneta em vidro”. Não chega ao atrito muito pronunciado que alguns preferem (há quem diga que certos rivais têm uma sensação ainda mais “papel”), mas fica num ponto equilibrado: há fricção, há controlo e, ao mesmo tempo, o movimento não é áspero. Para escrever páginas e páginas de notas, é confortável. Para desenhar também, embora com uma limitação importante para ilustradores mais exigentes: não há suporte de inclinação, como se vê nalguns concorrentes, o que pode afetar técnicas de sombreamento e certos tipos de lápis digital. Para esboços, mapas mentais, diagramas, fluxogramas e até sketching casual, continua a ser muito competente, sobretudo por causa da pressão e da estabilidade do traço.

Já a aplicação de notas nativa é extensa, pois oferece uma quantidade grande de ferramentas, como modelos de página (linhas, grelhas, pautas musicais e outros), várias canetas e marcadores, com espessuras configuráveis e ainda a possibilidade de fazer seleção, laço, formas e correção de formas. Há também a possibilidade de gravar áudio e de exportar notas em formatos úteis. Mesmo sendo um ecrã a preto e branco, o sistema pode permitir escolher cores que só se tornam “visíveis” quando exportam para PDF/PNG e que são abertas noutro dispositivo, o que pode ser valioso para quem organiza informação por cores, apesar de, no ecrã, a diferenciação ser limitada.

O Boox Go 10.3 corre o Android 12 numa versão personalizada, motivo pelo qual o aparelho pode ser o melhor dos dois mundos, mas também a razão pela qual nunca será tão simples como um leitor fechado. Ou seja, e graças à Play Store, podem instalar as apps do Kindle, Kobo, OneNote, Evernote, Dropbox, Google Drive e por aí fora. O problema é que nem todas as aplicações foram pensadas para E Ink, o que significa que muitas dessas apps acabam por ficar visualmente estranhas por causa de animações e scroll. E mesmo quando funcionam, perde-se frequentemente a integração mais elegante de anotação direta em cima do conteúdo, coisa que a aplicação nativa de leitura, como o NeoReader, acaba por fazer muito melhor.

Aliás, no que toca à leitura, o NeoReader é um dos pontos fortes da Onyx. A quantidade de ajustes é enorme: tamanho de letra, espaçamento de linhas, margens, espaçamento entre palavras e parágrafos, capacidade de deixar algo a negrito e, até, importação de fontes. Para quem é exigente com tipografia e com a forma da página, isto é ouro. Em PDFs, a Onyx costuma oferecer ferramentas úteis como recorte de margens, melhoria de contraste, modos de navegação, anotações e a possibilidade de dividir ecrã para ter o PDF de um lado e um caderno do outro. Num dispositivo de 10.3 polegadas, o split-screen é particularmente interessante para trabalho académico e profissional, ou seja, ter a possibilidade de ler e escrever notas em simultâneo sem ter de andar a alternar entre diferentes janelas.

A interface do Boox Go 10.3 também tenta ser mais simples do que a de outros Boox. Em vez de dezenas de ecrãs e ícones, há uma barra lateral com categorias principais (biblioteca, loja, notas, armazenamento, aplicações e definições) e um centro de controlo acessível por gesto para coisas como Wi-Fi, Bluetooth, rotação, split-screen, capturas de ecrã e, claro, as definições do E Ink (centro E-Ink). Também existe, nalgumas configurações, uma bola flutuante com atalhos configuráveis, que pode ser útil para diversas ações.

Há outro fator importante a destacar: as atualizações. O equipamento corre o Android 12, mas a Onyx tem uma abordagem que, aqui, acaba por jogar a favor do produto: em vez de se focar em “saltos” grandes de versão do Android, vai afinando a experiência através de atualizações de firmware e de funcionalidades próprias pensadas especificamente para e-ink. Isto traduz-se em updates relativamente frequentes, não se limitando apenas a correções pequenas. Ou seja, há efetivamente melhorias reais, seja na estabilidade e desempenho, nas opções de escrita e anotação, ou até em ferramentas novas, tudo para tornar o Boox Go 10,3 mais completo com o tempo.

Por falar em desempenho, o Boox Go 10.3 traz um processador octa-core até 2,4GHz e 4GB de RAM. No uso típico tende a ser fluido para um E Ink, nomeadamente abrir documentos, alternar entre diferentes aplicações ou escrever e navegar entre menus, que por norma é geralmente rápido. Há, no entanto, duas situações distintas nas quais pode ter dificuldades: o uso de aplicações pesadas e gestão de projetos de notas muito grandes. Para além disso, o dispositivo vem pré-definido para se desligar totalmente após um período de inatividade e, durante o tempo que está a reiniciar, podem acabar a olhar para o ecrã durante dezenas de segundos até ficar operacional. Para contornar isto, basta ajustar nas definições para evitar que o Boox Go 10.3 se desligue, ficando assim apenas em modo repouso.

A bateria do Boox Go 10.3 é, sem dúvida, um dos pontos fortes. Com 3.700 mAh e um ecrã sem luz frontal, o consumo tende a manter-se baixo quando o uso é sobretudo leitura e escrita. Se juntarmos a isso o facto de se desligar, como já expliquei acima, após períodos de inatividade, é perfeitamente realista falar em semanas de autonomia, o que é excelente: não é um dispositivo que obrigue a pensar em carregamentos todos os dias e isso, por si só, muda a forma como ele se integra na rotina e no ritmo de trabalho.

Relativamente ao áudio, existe sim, e enquanto para alguns é um “bónus”, para outros acaba por ser um pouco irrelevante, como é o meu caso, já que muito raramente uso o Boox Go 10.3 para ouvir audiolivros, podcasts ou qualquer outro conteúdo. Quando ouço, a falta de botões físicos de volume torna o ajuste menos imediato, pelo que acabo por ficar dependente do centro de controlo no ecrã para o fazer. A compensar, o Bluetooth 5.0 permite emparelhar auriculares/auscultadores sem fios e, aí, a experiência melhora bastante, já que deixo de estar dependente daqueles altifalantes pequenos. O microfone, quando presente e bem implementado, pode ser útil para notas de voz e gravações rápidas, mas novamente é uma função secundária num aparelho cujo propósito principal é texto e escrita.

Há, depois, outros pormenores que, no dia-a-dia, acabam por fazer diferença: a transferência de ficheiros, a integração com computadores e o ecossistema de sincronização. A Onyx facilita bastante este lado com opções como o envio via cloud e ferramentas de transferência drag and drop através do browser, tornando tudo mais simples e, muitas vezes, dispensando por completo a necessidade de cabos. Isto é particularmente útil quando queremos um fluxo rápido entre dispositivos, ou quando a ligação por USB pode não ser a mais prática em certos sistemas. Já para quem trabalha em ambiente Mac, por exemplo, a abordagem via cloud ou através das próprias soluções da Boox tende a ser a forma mais direta e consistente de gerir documentos e manter tudo organizado.

Por fim, relativamente à capa que acompanha o Boox Go 10.3, trata-se de um extra bem-vindo, sobretudo porque muitas marcas vendem este tipo de acessório à parte e a preços pouco simpáticos. Visualmente, segue a mesma lógica do dispositivo: discreta, com um acabamento que imita pele e um toque agradável, dando a sensação de que protege sem acrescentar demasiado volume. No dia-a-dia, cumpre bem o essencial, porque ajuda a evitar riscos no ecrã e, acima de tudo, dá mais segurança no transporte, o que acaba por ser importante num equipamento tão fino. O sistema de fecho com peça magnética é uma solução particularmente bem pensada, até porque a aba é destacável e dá liberdade para escolher onde a prender consoante a forma como se está a usar a capa. Ainda mais útil é o facto desta também permitir definir um local para guardar a caneta, o que ajuda muito tendo em conta a fraca ligação magnética da mesma ao tablet. Tudo isto permite transportar o Boox Go 10.3 e a sua caneta com mais segurança e com menos preocupação de ficarem perdidos pelo caminho.

No seu todo, o Boox Go 10.3 brilha em cenários muito específicos. É excelente para leitura prolongada de artigos, documentos e livros em ambientes bem iluminados. É ótimo para anotação de PDFs, sublinhar, escrever à margem, assinar documentos e exportar resultados. É muito competente como caderno de trabalho para reuniões, aulas, brainstorming e organização pessoal, sobretudo se aproveitarmos os modelos de página, as ferramentas de formas e a conversão de escrita para texto. Também é um bom dispositivo para quem precisa de várias bibliotecas e aplicações.

Por outro lado, há situações onde se torna uma escolha difícil de justificar. Se a leitura noturna é central para vocês, irão sentir a falta de luz todos os dias. Se querem um aparelho para ler na cama, mas sem acordar ninguém com candeeiros, não é este. Se querem um “tablet” para navegar na internet e consumir conteúdo dinâmico, irão achar tudo lento e visualmente frustrante.

Resumidamente, se a vossa prioridade é escrever com prazer, ler com nitidez e ter liberdade para usar várias aplicações e serviços, o Boox Go 10.3 faz muito sentido. É uma escolha acertada quando procuram precisamente aquilo que faz melhor e quando a ausência de luz frontal não se torna um entrave no vosso dia-a-dia. É preciso é que estejam dispostos a pagar o que custa: 419.99€.

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Este produto foi cedido para análise pela Boox

Inês Lopes
Inês Lopes
Dentista nas horas vagas e colaboradora do Echo Boomer no tempo que sobra. Fã de gadgets, livros e tâmaras (não necessariamente por esta ordem), adoro explorar o mundo através da comida e das viagens. Se não me encontrarem a escrever ou a trabalhar, é porque estou confortavelmente instalada no sofá, provavelmente a devorar um novo livro.
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