A MPA enviou notificações legais à ByteDance para travar o uso não autorizado de personagens e atores na nova plataforma de geração de vídeos por IA Seedance 2.0.
A gigante tecnológica ByteDance, detentora do TikTok, lançou uma nova geração de inteligência artificial, o Seedance 2.0, que está a abalar a indústria de Hollywood devido à criação de vídeos hiper-realistas sem salvaguardas de direitos de autor. O modelo permite gerar sequências de 15 segundos a partir de comandos de texto, oferecendo um controlo avançado sobre ângulos de câmara, iluminação, sombras e movimentos subtis das personagens.
Segundo a consultora CTOL Digital Solutions, a ferramenta supera as capacidades de alternativas do mercado, como o Sora, da OpenAI, e o Veo, da Google. A ausência de filtros resultou numa proliferação imediata de vídeos nas redes sociais que utilizam, sem autorização, a imagem de atores reais e propriedade intelectual de vários estúdios.
Em poucas horas, fóruns e plataformas digitais foram inundados com clipes não oficiais que mostram perseguições num arranha-céus em ruínas entre Tom Cruise e Brad Pitt, confrontos do Batman com criaturas inspiradas na série Stranger Things, ou batalhas entre o Spider-Man e o Superman. Os utilizadores recriaram finais alternativos para produções como Game of Thrones, Squid Game e Bridgerton, e geraram imagens hiper-realistas de personagens como Darth Vader, Grogu, Shrek, SpongeBob, Deadpool e até Will Smith a lutar contra monstros de esparguete digitais. A viralização rápida destes conteúdos atraiu milhões de visualizações e gerou um debate intenso sobre os limites da reprodução digital e a proteção da criatividade humana.
A reação da indústria cinematográfica foi imediata e unificada de uma forma que conflitos anteriores não conseguiram alcançar. A Motion Picture Association (MPA), em representação de sete grandes estúdios, incluindo Disney, Warner Bros., Paramount e Netflix, enviou notificações de cessação e desistência aos escritórios da ByteDance. A exigência central passa pela suspensão imediata do treino do algoritmo com recurso a filmes e séries dos estúdios, bem como a implementação de mecanismos que impeçam a geração de material protegido. A conselheira geral da MPA, Karyn Temple, sublinhou numa carta que as infrações são sistémicas e não um erro informático, exigindo até 27 de fevereiro uma resposta detalhada sobre as medidas corretivas a adotar, rejeitando declarações gerais por parte da empresa chinesa.
Já o diretor executivo da MPA, Charles Rivkin, acusou a tecnológica de operar sem salvaguardas significativas, ignorando as leis de direitos de autor e ameaçando milhões de empregos norte-americanos no setor audiovisual. Esta posição é apoiada pelo sindicato de atores SAG-AFTRA e pela Human Artistry Campaign, que classificou o Seedance 2.0 como um ataque global aos criadores.
Por sua vez, a Netflix rotulou a plataforma como um motor de pirataria em alta velocidade, enquanto que a Disney, que já tinha processado a Midjourney no ano anterior, enviou uma missiva acusando a ByteDance de roubo virtual de propriedade inteletual e de sequestro das suas personagens, segundo a Axios. Quanto à Paramount, tomou medidas semelhantes, reportadas pela Variety, alertando para a criação de conteúdos visualmente e auditivamente indistinguíveis das suas franquias originais.
As consequências estendem-se aos profissionais da área criativa. Rhett Reese, argumentista de Deadpool, alertou que a tecnologia poderá transformar drasticamente a produção de guiões e eliminar postos de trabalho, tornando mais barato o recurso a máquinas. Em contrapartida, Heather Anne Campbell, produtora de Rick e Morty, questionou o valor criativo das obras geradas, considerando o fenómeno um espetáculo passageiro. O principal receio de Hollywood é a perda de controlo sobre personagens e universos consagrados, bem como a associação feita pelo público entre os conteúdos gerados de forma artificial e as narrativas oficiais dos estúdios.
A ByteDance, num curto comunicado à CNBC, garantiu respeitar as proteções de direitos de autor e anunciou a intenção de reforçar os mecanismos de segurança. Um porta-voz da empresa indicou que o objetivo é prevenir o uso sem autorização de propriedade inteletual, limitando a criação de conteúdos com pessoas reais e personagens protegidas, embora os detalhes práticos destas restrições permaneçam por esclarecer. O Wall Street Journal (acesso pago) refere que a empresa vê a ferramenta, atualmente disponível para utilizadores chineses na aplicação Jianying e com previsão de expansão global via CapCut, como uma forma de democratizar a criação de vídeo.
A controvérsia surge numa altura em que a ByteDance finalizou um acordo para vender as operações do TikTok nos Estados Unidos, mantendo uma participação no negócio, e evidencia o contraste com estúdios como a Disney, que, apesar da firmeza nestes casos, assinaram acordos de licenciamento com empresas como a OpenAI, privilegiando plataformas com salvaguardas e acordos comerciais estabelecidos.
