O número 66 da Rua da Junqueira, em Lisboa, transfigurou-se, nos últimos anos, em algo inovador e muito especial: o MACAM – Museu de Arte Contemporânea Armando Martins, que celebra agora o seu primeiro aniversário e se ergue como o primeiro museu híbrido da Europa, onde um hotel de cinco estrelas e uma instituição museológica de referência coabitam num diálogo de mútua sustentabilidade.
A convite de Filipa Sanchez, responsável pela área de Comunicação e Conteúdo Digital que integra a equipa do Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM), tivemos o privilégio de fazer uma visita de apresentação da exposição e do projeto do museu, para a imprensa e algumas personalidades. Fomos recebidos pela diretora Adelaide Ginga, historiadora de arte e museóloga portuguesa, e Carolina Quintela, investigadora, crítica e joalheira, ambas curadoras do museu.
Logo à chegada ao estacionamento subterrâneo do edifício (o recuperado Palacete Alagoas, também conhecido como Palácio dos Condes da Ribeira Grande), entramos na exposição, com uma obra bidimensional escultural, que evoca uma bicicleta de materiais reciclados em movimento.
Depois, de uma forma imersiva, encontramos no túnel de acesso pedonal ao museu a obra em néon: Between Heaven and Earth, do artista José Drummond, conseguida com algoritmos que fazem acender, a azul e vermelho, uma sucessão de painéis luminosos, numa aleatoriedade representativa dos elementos da natureza e dos princípios que regem a transitoriedade e imprevisibilidade da vida humana.
No átrio, somos recebidos por uma outra instalação, This sign is an act of love/ it can not be bought or sold/it can only be given (este sinal é um ato de amor/não pode ser comprado nem vendido/só pode ser dado), uma obra da autoria de Douglas Gordon, um influente artista contemporâneo escocês conhecido pelo seu trabalho com vídeo, fotografia e instalações que exploram temas como a memória e a perceção.
Por fim, entrámos na Galeria 1, o coração desta celebração, com A Estética do Reencontro: Almada Negreiros e a Unidade Recuperada, onde se assiste a um dos momentos mais simbólicos da história da arte recente em Portugal: a reunificação dos painéis da Alfaiataria Cunha. Pintados por José de Almada Negreiros em 1913, estas obras representam a sua primeira encomenda e uma das primeiras experiências em óleo sobre tela.
Após décadas de separação entre a coleção do MACAM e o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, os quatro painéis voltam agora a formar um conjunto único. A estética destas figuras, quase à escala humana, revela um Almada em plena exploração do cromatismo e do desenho, onde a figura feminina e masculina surgem em paridade, desafiando as convenções da época. Este reencontro não é apenas curatorial; é um ato de justiça histórica que devolve ao público a unidade original de uma obra fundamental do modernismo português.
O MACAM é, pois, o projeto de uma entrega, que resulta da grande vontade do colecionador, o engenheiro Armando Martins, e do trabalho de uma equipa totalmente devotada a esta grande demanda, em que obras de arte emblemáticas adquiridas ao longo de uma vida, e representantes privilegiadas do percurso das belas artes em Portugal, encontram finalmente a sua casa e um momento de respiração e diálogo com outras peças visitantes e emprestadas – um ponto de partida para novas etapas e desafios.
Neste ponto fundamental e tão significativo da jornada de décadas de Armando Martins (o aniversário do museu irá coincidir este fim de semana com o do empresário e fundador), e após esta transformação do antigo Palacete Alagoas – que serviu como liceu e escola durante décadas – num santuário para as mais de 600 obras do colecionador, sob a direção de Adelaide Ginga, a equipa do museu demonstra uma entrega absoluta na criação de um percurso que visa cativar (e bem o merece!) o maior número de visitantes possível e mostrar ao grande público a arte portuguesa nos seus diferentes períodos e nomes mais representativos.
Para tal, a curadoria aposta numa “apresentação permanente, mas não estática”, com aquisições recentes, como o retrato de Silva Porto (1885) – uma das obras de maior protagonismo, neste evento, que faz parte do núcleo mais antigo e foi uma “atualização recente” que o colecionador Armando Martins concretizou este ano -, a par de um Mário Cesariny – como disse o colecionador, um “namoro antigo” que agora se concretiza – de vincado abstracionismo, com o cromatismo típico dos anos 70 do artista e adquirido especificamente com o objetivo de ser partilhado no aniversário.
Toda esta dinâmica se estende à Sala da Ordem e Geometria, onde o diálogo entre nomes como José Escada, Nadir Afonso e Eduardo Luís cria uma vibração cinética que surpreende o visitante.
Perguntámos ao empresário como conseguiu concretizar uma obra desta envergadura. A grande inovação do MACAM reside, de facto, no seu modelo de gestão. O MACAM Hotel, sob a direção de Vera Cordeiro, é o garante da manutenção e independência do museu. Com 64 quartos exclusivos, o próprio hotel de cinco estrelas é uma continuação da coleção, que assim se estende para além das galerias, permitindo que os hóspedes convivam de perto com obras de Amadeo de Souza-Cardoso, Paula Rego ou Vieira da Silva.
As receitas do alojamento e da restauração – como o restaurante Contemporâneo – Food & Wine e o bar àCapela – permitem que a instituição mantenha uma programação ambiciosa e gratuita em datas festivas.
No fundo, estamos perante um caso de “património em uso”. O restauro exemplar do Palácio Condes da Ribeira Grande foi, de resto, distinguido com o Prémio Gulbenkian Património 2025, o que prova que a conservação de edifícios históricos é viável quando aliada a serviços de luxo e uso cultural intensivo, em que a arte está integrada no quotidiano do hotel, transformando o ato de habitar também num ato de contemplação.
Em suma, este património é um presente para a cidade e todos os que a visitarem. Neste primeiro aniversário, com entrada gratuita e um programa que inclui visitas do escritor Afonso Reis Cabral e concertos de Márcia, o MACAM reafirma-se como um projeto onde a vontade individual de um colecionador e o rigor técnico e entrega de uma equipa se uniram para oferecer a Lisboa um museu vivo, sustentável e esteticamente deslumbrante.
Então, só para se poderem guiar e ficarem aqui com o mais importante: no sábado, 21 de março, o museu celebra o aniversário com um horário alargado, estando aberto das 10h às 22h. Já no domingo, 22 de março, o horário de funcionamento é das 10h às 19h. Durante estes dois dias (sábado e domingo), a entrada no museu é totalmente gratuita para todo o público, mas atenção: embora a entrada seja livre, algumas atividades específicas (como as visitas guiadas ou concertos em espaços menores) podem estar sujeitas à lotação do espaço.
Visitas especiais e eventos de poesia fazem parte da festa aberta ao público, mas é recomendável chegar cedo, dado o interesse gerado.
Quanto aos destaques da programação, no sábado haverá visitas especiais, com percursos guiados que exploram a renovação da coleção, com foco no reencontro dos painéis de Almada Negreiros. A isto somam-se sessões de leitura de poesia, destacando a relação da coleção com a literatura (com a participação de nomes como o ator Diogo Dória e a sua filha). Vai haver, também, música ao vivo, no espaço àCapela, que cruza artes performativas com o serviço de bar.
Já domingo será dia da visita com Afonso Reis Cabral, uma das atividades mais aguardadas, onde o escritor faz uma ponte entre as obras de arte (Naturalismo, Modernismo) e a literatura portuguesa.
Depois, finalmente, será o momento oficial, assinalando, como dissemos, a coincidência do aniversário oficial do colecionador Armando Martins com a celebração do primeiro ano do museu, com a entrega da Medalha de Mérito Cultural ao colecionador e empresário a quem devemos este magnífico espaço e a sua abertura e partilha das obras colecionadas e de obras visitantes com o grande público e a cidade.
O que há de novo? Uma renovação da exposição permanente, marcada pela reunião histórica dos 4 painéis da Alfaiataria Cunha, de Almada Negreiros e a primeira oportunidade de vermos as obras de Silva Porto, Mário Cesariny e Cruzeiro Seixas integradas no percurso.
Para deliciar os amantes do contemporâneo, temos as Instalações Site-Specific, obra de luz de José Pedro Croft no Hall, e a experiência sensorial de José Drummond, no túnel de acesso.
Agora deixamos uma nota especial: se quiserem ver uma obra de arte única, apocalíptica, que cruza o grande símbolo do sagrado cristão e a arte contemporânea, não deixem de visitar o àCapela – Live Arts & Bar, que funciona na antiga Capela de Nossa Senhora do Carmo, integrada no edifício do MACAM (que brilha como nunca, depois de um restauro sem precedentes). O àCapela – Live Arts & Bar está aberto para cocktails de autor e petiscos, e irão notar que é mesmo um ponto de encontro social e um lugar único.
